quarta-feira, 7 de junho de 2000

Os bancos estatais federais e a experiências dos créditos populares

Recentemente, em uma auditoria contratada pelo governo federal e empreendida pela Consultoria Booz Allen, ficou demonstrado que nenhum dos cinco bancos federais - Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, Banco da Amazônia e Banco do Nordeste do Brasil - têm controle efetivo sobre o risco de seus empréstimos e é eficaz na recuperação dos créditos inadimplentes, aplicando muito mal o dinheiro dos contribuintes.
A consultoria aponta que a mistura entre as atividades comerciais e de fomento nesses bancos, e a falta de publicidade destas características ao público, têm comprometido a atuação de tais instituições.
A auditoria comprovou um fato que já foi cantado aos quatros cantos desse país: a promiscuidade das relações entre o sistema financeiro estatal, os empresários e as oligarquias rurais.
Os sucessivos governos brasileiros da era democrática têm utilizado os bancos estatais para pagar favores aos grupos econômicos que os têm financiado nas campanhas eleitorais, através de concessões de empréstimos sem às devidas garantias, pela não cobrança das dívidas vencidas, pela filantrópica forma de renegociar as dívidas, dentre outros mecanismos fartamente divulgados nas sucessivas e semanalmente esquecidas manchetes-escândalos da imprensa brasileira.
O livro de Mário Sérgio Conti, Notícias do Planalto - a imprensa e Fernando Collor, demonstra de forma didática, através do recorte das notícias divulgadas pelos principais meios de comunicação do país no período Collor, os procedimentos adotados pelo governo federal nesse sentido, prática, aliás, que permanece rotineira nos primeiro e segundo mandato do atual presidente da República.
A gravidade de tal situação tem sido utilizada constantemente para desacreditar tais instituições com o óbvio objetivo de privatizá-las, ação que, sem entrar em debates ideológicos a respeito da necessidade ou não de manutenção de bancos estatais, não responde a uma questão crucial para o desenvolvimento do Brasil: como estimular a poupança e financiar a atividade produtiva do país, de forma a gerar empregos e sustentabilidade ?
Em que pesem as críticas maliciosas e mal-intencionadas a respeito dos bancos estatais, é preciso que se diga que a atual estrutura produtiva - agrícola, comercial e industrial - foi financiada por tais instituições nas décadas em que ainda se operava politicamente vislumbrando um projeto nacional.
Paradoxalmente, nesses tempos em que nossas instituições públicas federais são destruídas pela sanha predatória dos dirigentes de plantão, Estados e municípios demonstram de fato a necessidade e possibilidade de manutenção de mecanismos públicos de financiamento à atividade produtiva, através da democratização das relações entre a esfera estatal e a iniciativa privada.
O Portosol, em Porto Alegre (RS), emprestou desde sua fundação em 1996 R$ 20 milhões através de pequenos empréstimos - com valores que variam de R$ 200,00 a R$ 15 mil - com uma taxa de inadimplência de 3,5%.
Tal instituição, fundada inicialmente como organização não-governamental, recebeu um aporte de R$ 700 mil da Prefeitura de Porto Alegre, R$ 350 mil do governo do Estado do RS, e mais R$ 530 mil de duas instituições estrangeiras - a Interamerican Foundation (IAF) e a Deutschen Gesellschaft Für Technische Zusammenarbeit (GTZ), e hoje é completamente auto-suficiente.
Outras instituições como o Banco do Povo (Fundo de Crédito Popular) do Estado de São Paulo, Serra Sol em Serra Negra do Norte (RN), Banco Popular de Ipatinga (MG), o Banco do Povo de Crédito Solidário de Santo André (SP), têm comprovado que a administração de recursos públicos de forma descentralizada, com a devida fiscalização da sociedade civil - é preciso que se diga que algumas das instituições citadas possuem em seus conselhos consultivos ou fiscais, representantes da comunidade, tendo como foco pequenos e médios empresários, facilitando a concessão de empréstimos com a flexibilização das garantias, pode ser uma resposta à situação dos bancos estatais federais.
Os Bancos dos Povos, como são conhecidos têm, sem alarde, conseguido resultados muito mais significativos do que os programas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, que montado nos recursos do FAT - Fundo de Amparo ao Trabalhador - alcançou a proeza de financiar até "programas de reestruturação" de empresas, eufemismo empregado para a geração de desemprego, além de participar de forma agressiva, para nossa perplexidade, nas privatizações das estatais.
Tais iniciativas demonstram a necessidade, mais do que urgente, de democratizar as relações do Estado brasileiro com a sociedade civil, através de mecanismos que promovam a participação dos cidadãos na gestão do patrimônio público, de forma a desburocratizar e dar transparência às políticas públicas, retórica fartamente empregada e quotidianamente negada na esfera federal.
Nossas instituições bancárias estatais, previdência pública, fundos constitucionais, poderiam estar financiando o desenvolvimento ao invés de constituírem o nó górdio de nosso desequilíbrio fiscal.
As experiências relatadas, mesmo diante da sua falta de escala em relação aos problemas desse país, iluminam um caminho diferente desse que nos acostumamos a ver e ouvir nos meios de comunicação. Constituem uma provocação para o "Brasil de baixo", de que há possibilidades de mudanças, mesmo com toda a má vontade do "Brasil de cima".

domingo, 2 de abril de 2000

A imprensa brasileira e a democracia: crônica de um liberalismo tupiniquim

Dois fatos ocorridos no final de 1999, de proporções diversas, chamaram a atenção do cidadão brasileiro atento, cujas repercussões ainda estão por merecer uma reflexão mais séria e detida - acompanhada, por certo, de ações que busquem neutralizar seus efeitos perversos: (a) o jornalista e ex-diretor da revista VEJA, Mário Sérgio Conti, publica o livro Notícias do Planalto - A imprensa e Fernando Collor, através do qual pretende explicar a relação dos jornalistas, repórteres e proprietários de meios de comunicação com a ascensão do ex-presidente da República; (b) o jornalista Carlos Alberto de Souza tem o título do seu livro, O fundo do espelho é outro - quem liga a RBS liga a Globo, fruto de dissertação de mestrado na UFSC, censurado pela Editora da Universidade do Vale do Itajaí sob pressão da Rede Brasil Sul , sendo publicado posteriormente com O fundo do espelho é outro - quem liga a ... , onde explica a inserção da RBS em Santa Catarina como expressão dos interesses da Rede Globo.
Estes dois "acontecimentos editoriais", seguidos de suas intenções - o primeiro motivado em interpretar a história política recente do país de forma a abrandar a participação da Rede Globo e da Revista VEJA na eleição de Fernando Collor, propósito em que foram acompanhados pelos mais importantes órgãos da imprensa nacional; e o segundo impulsionado pelo interesse em compreender o papel da RBS na região sul do Brasil - intenção da qual foi parcialmente censurado -, fazem lembrar de uma velha reflexão de um aristocrata francês - Alexis de Tocqueville - nascida de sua viagem aos Estados Unidos da América em 1835, consubstanciada no clássico A Democracia na América.
Tocqueville observa a nascente democracia norte-americana e a forma como seus cidadãos organizam a imprensa tecendo os seguintes comentários: "Todo poder aumenta a ação das suas forças à medida que centraliza a sua direção; é essa uma lei geral da natureza, que o exame demonstra ao observador e que um instinto mais certo ainda sempre fez conhecer aos menores déspotas. Na França, a imprensa reúne duas espécies de centralização distintas. Quase todo seu poder está concentrado num mesmo lugar e por assim dizer nas mesmas mãos, pois os seus órgãos são muito pouco numerosos. (...)Nem uma nem outra das duas espécies de centralização de que acabo de falar existe na América. Os Estados Unidos não têm capital: as luzes como o poder acham-se disseminados em todas as partes daquela vasta região; os raios da inteligência humana em lugar de partir de um centro comum, crescem , pois, em todos os sentidos; os americanos não situaram em parte alguma a direção geral do pensamento, assim como não o fizeram com a direção dos negócios públicos."
Podemos perceber nas palavras de Tocqueville um dos elementos que passou a caracterizar as democracias nascidas na era moderna: o desenvolvimento de uma imprensa livre como garantia de uma sociedade pluralista, princípio que foi, e continua sendo em muitos países, uma preocupação dos governos e da sociedade. Pressuposto que fundamenta na Europa desse século uma legislação altamente restritiva à concentração de meios de comunicação nas mãos de um mesma empresa - através do impedimento de propriedade simultâneas de rádio, jornal e TV - ou à concentração de audiência nacional - com a obrigatoriedade de um percentual alto de produções regionais.
No Brasil, terra em que o liberalismo foi fruto da verve discursiva de bacharéis, funcionando como sala de estar ao patrimonialismo articulado com o poder exercido de forma autoritária, a história dos meios de comunicação foi, e continua sendo, mesmo após a modernização das redações, uma ilustração de que os interesses econômicos da elite dirigente estão sempre em primeiro lugar.
É muitíssimo claro que a realidade de Tocqueville do século XIX está bastante transformada, na medida em que o final do século XX acompanhou uma grande concentração dos meios de comunicação nos países centrais, fundamentalmente nos Estados Unidos - através de fusões que promoveram a criação de verdadeiros gigantes das comunicações -, que fazem pensar em que medida os princípios liberais de uma imprensa livre ainda persistem. Porém, na grande maioria dessas nações há uma sociedade civil complexa e pluralista que não alcança similar no Brasil, onde percebemos experiências diversas como os jornais partidários da França e Itália e os canais públicos de televisão da Alemanha e Inglaterra.
No Brasil, em que pese o crescimento do número de jornais regionais, rádios comunitárias, órgãos de comunicação de sindicatos e ONG's, que têm atuado muitas vezes como guerrilheiros diante do exército organizado dos grandes órgãos, precisamos urgentemente pensar e construir meios de comunicação que possam ser opções de massa alternativos à ditadura da informação das grandes famílias.
A sociedade brasileira nesse início de século XXI pode ser muito mais complexa, rica e interessante do que esta caricatura pintada cotidianamente por quem não gostaria de nos ver e ouvir.

sexta-feira, 10 de março de 2000

A crise das instituiçõe internacionais

Em 1784 Immanuel Kant redigiu "Idéia de uma História Universal de um Ponto de Vista Cosmopolita", no qual, além de firmar os princípios inaugurais da filosofia da história alemã, chama a atenção para o fato de que a possibilidade de estabelecimento de uma constituição civil perfeita em um determinado Estado dependeria da resolução do problema relativo às relações externas entre os Estados.
Ou seja, da mesma forma que no plano interno do Estado, o cidadão, para desenvolver a sua insociável sociabilidade, tem a necessidade de um poder exercido segundo leis que o obrigue a obedecer à vontade universalmente válida, no plano externo os Estados deverão "sair do estado sem leis dos selvagens para entrar numa federação de nações em que todo o Estado, mesmo o menor deles, pudesse esperar sua segurança e direito não da própria força ou do próprio juízo legal, mas somente desta grande confederação de nações, de um poder unificado e da decisão segundo leis de uma vontade unificada."
Tais reflexões formuladas pelo filósofo alemão em 1784 revestem-se de suma importância neste final de século XX, diante da crise das instituições internacionais fundadas no segundo pós-guerra e desde então responsáveis pelo "equilíbrio global" do planeta: Organização das Nações Unidas, Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional e, recentemente, Organização Mundial do Comércio.
Tais instituições foram criadas com o objetivo de administrar uma ordem institucional global que buscava: (a) no plano político, impedir novas aventuras expansionistas de países, a partir da mediação e, em últimos casos, uso da força, em conflitos internacionais, e (b) no plano econômico, impedir novas crises monetárias como a ocorrida nas décadas de 20/30.
Ocorre que neste final de século vivemos um perigoso paradoxo: por um lado todos temos uma crescente compreensão de que os problemas que enfrentamos são, por assim dizer, cada vez mais, expressões globais das relações mantidas entre Estados, grandes empresas e sistemas financeiros internacionalizados, aprofundados pela chamada terceira revolução industrial e tecnológica; por outro, vivemos uma crescente crise de legitimidade das instituições que poderiam viabilizar uma integração global satisfatória aos diversos povos.
Acompanhamos todos a Terceira Conferência Ministerial da Organização Mundial do Comércio preparatória à Rodada do Milênio, ocorrida em Seatlle, Estados Unidos, em dezembro de 1999, e o profundo desacordo entre as propostas comerciais dos Estados Unidos e Europa e suas efetivas práticas comerciais, ao solicitarem a abertura dos mercados internacionais através de legislações liberalizantes e, contraditoriamente, promoverem barreiras aos produtos dos países "emergentes" que competem com seus produtos locais, bem como o fracasso geral nas negociações, com os principais atores questionando a legitimidade da OMC como fórum para dirimir os conflitos econômicos entre os Estados.
Mike Moore, Diretor-Geral da OMC, chegou a afirmar, aflito diante da confusão geral que foi a Conferência, que sem o sistema multilateral de comércio o mundo seria mais pobre, seria um mundo dos blocos concorrentes e da política de poder, um mundo mais conflitivo, mais incerto.
Recentemente acompanhamos a disputa entre os europeus e os norte-americanos em torno da direção do Fundo Monetário Internacional, com o veto dos segundos ao nome oferecido pelos alemães - um teuto-brasileiro, diga-se de passagem, pois Caio Koch-Weser nasceu no Paraná - , provocando uma crise diplomática ainda não resolvida, cujas razões encontram-se para além do nome sobre o qual recairá a responsabilidade do cargo, mais precisamente na indecisão sobre o papel do FMI no próximo milênio.
A Organização das Nações Unidas vive já há algum tempo em estado de insolvência, sem que seus principais sócios façam o repasse dos recursos devidos, provocando uma crise interna entre seus quadros.
Recentemente um diplomata brasileiro afirmou a jornalistas dos principais jornais nacionais que as principais decisões emanadas de tais órgãos são definidas segundo o interesse das principais potências participantes em suas direções e comunicadas como se fossem fruto de acordos gerais.
Enfim, em um final de século em que nossas percepções acerca dos problemas comuns tornam-se mais agudas, falando-se até na necessidade de organização de uma "sociedade civil global" como resposta à falência dos estados nacionais e sua arquitetura jurídica, percebemos que as instituições internacionais criadas na metade do século com o intuito de reorganizar um mundo estilhaçado pela guerra estão à beira da falência política e econômica.
Sempre soubemos que tais instituições foram criadas, nas palavras do norte-americano George Busch, pré-candidato à presidência pelo Partido Republicano, com o objetivo de garantir a supremacia econômica, política e militar dos Estados Unidos, compartilhada com uma Europa razoavelmente dividida, isto é, sem um país líder.
Ocorre que, em meio século, tal realidade nunca foi tão questionada como hoje.
E o papel do Brasil e de seus dirigentes nesse panorama ?
Talvez, parafraseando Milton Santos, quando interpretarmos o Brasil e o mundo a partir de nossa condição de brasilidade possamos ser suficientemente universais para encontrarmos forças para melhorar o nosso país, e certamente para escolhermos dirigentes à altura dos desafios que o mundo nos coloca !

quarta-feira, 8 de março de 2000

Pequenas reflexões sobre o real

O historiador Eric Hobsbawm afirmou certa vez, em uma de suas entrevistas à imprensa brasileira, que a marca de nosso tempo é viver em um "eterno presente", sem conexões que possam conduzir à alguma espécie de reflexão acerca de nossos problemas.
Porém, tal atividade - construir conexões e estabelecer referências - é absolutamente necessária nesses tempos em que as incertezas nos fazem refletir em relação ao futuro da economia brasileira após cinco anos da gestão de Fernando Henrique Cardoso à frente da Governo Federal, onde acompanhamos o aprofundamento de uma série de problemas, tais como os altos índices de desemprego, os altos níveis de endividamento das empresas, a queda do consumo, e vários outros indicadores que demonstraram nesse período um quadro real de recessão e declínio da atividade econômica produtiva.
Precisamos lembrar o que ocorreu no último período da história de nosso país, bem como o que afirmaram algumas personalidades da inteligência nacional e internacional.
Stephen Kanitz, professor da USP, com mestrado em Harvard/USA, pode ser considerado o modelo da euforia que cercou o início do Plano Real , com a estabilização da moeda e posterior eleição de FHC, quando afirmou, nove dias após o pleito presidencial de 1994, que “o novo presidente terá a sorte de governar o país com economia em ritmo acelerado de crescimento, iniciando um novo ciclo com índices de crescimento entre 7% e 8% ao ano, e que perdurará até o ano de 2005.”
Alguns meses após, mais precisamente no início de 1995, Albert Otto Hirschmann, professor de Princeton/USA, afirmava categoricamente que com a eleição de FHC o progresso se dirigia à América Latina.
Dois anos após a posse de FHC, com PFL, PPB, PMDB, PSDB e PTB em franca e pública discussão sobre a emenda da reeleição, ouvimos o economista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT/USA), Rudiger Dornbusch afirmar que a economia brasileira não estava indo a lugar algum. Alertava o governo brasileiro para a defasagem cambial, ou seja, a equiparação artificial entre dólar e real, e explicava a necessidade de retomada do crescimento econômico através do incremento das exportações com uma pequena desvalorização cambial, admitindo índices de inflação de 10% a 15% ao ano. Denunciava a “monomania” do governo brasileiro em colocar, insistentemente, a necessidade de manutenção da inflação baixa como “único elemento da agenda política/econômica nacional”.
Acompanhamos alguns meses após a reeleição de FHC em 1998, obtida ainda no primeiro turno com uma ausência vergonhosa de debate sobre os rumos da economia brasileira, e sobretudo acerca de um projeto para o Brasil, uma série de calamidades. Saímos de uma situação de estabilidade monetária para uma situação de recessão econômica em aprofundamento e instabilidade monetária, com variações bruscas da cotação do dólar ocasionando uma série de problemas às pessoas físicas e jurídicas que celebraram contratos indexados em tal moeda, aprofundando o endividamento de consumidores e empresas. Tal situação de instabilidade foi acompanhada por uma vergonhosa fuga de capitais especulativos, e grande alta nos preços, situação que demonstrou a absoluta falta de instrumentos públicos de controle do fluxo de capitais e da economia.
Enfim até o momento , o resultado do conjunto de ações orquestradas por um governo que teve e mantém maioria esmagadora no Congresso Nacional tem sido a articulação de um ambiente macroeconômico extremamente hostil aos trabalhadores, pequenos e médios empresários nacionais, e prontamente simpático - do ponto de vista das reformas constitucionais encaminhadas e recursos públicos aportados - aos interesses das empresas estrangeiras e eventuais sócios brasileiros.
Com isso estamos completando uma década sem crescimento do PIB, 150 bilhões de dólares mais endividados ( as dívidas externa e interna duplicaram), com índices de desemprego chegando a 15% da PEA ( os mais altos índices desde 1991) e, finalmente, com Municípios e Estados de joelhos perante a União sem a menor possibilidade de investimentos em políticas públicas que possam mudar tal quadro.
É com esse cenário, que notoriamente não combina com nossas potencialidades, que estamos entrando no terceiro milênio. E é a partir dele que precisamos reconhecer todos a necessidade de debate nacional sério sobre os rumos do país, partindo do pressuposto de que as ações econômicas não são fruto de uma " lei natural" e sim resultado de decisões políticas, e que só retomaremos o crescimento almejado com uma postura soberana do governo brasileiro em relação ao mercado financeiro internacional, com a agenda política nacional pautada pela necessidade de investimentos e proteção seletiva dos setores produtivos da economia nacional, buscando a correção das grandes desigualdades regionais e sociais que assolam o país.

sexta-feira, 3 de dezembro de 1999

O reformismo no século XXI?

Recentemente os brasileiros tiveram a oportunidade de observar uma situação paradoxal com a participação de seu ilustre Presidente, Fernando Henrique Cardoso, no encontro ocorrido no Palazzo Vecchio, em Florença, na Itália, promovido pelo Instituto Universitário Europeu de Florença e pela Universidade de Nova York, com a participação de chefes de Estado e de Governo, em uma espécie de reunião informal entre líderes de tendência progressista – denominado "Il Reformismo nel siglo 21".
Finalmente fomos aceitos, em nossa condição de "emergentes", pelo "clube dos grandes", como uma peça fundamental no cenário internacional e de forma honrosa tivemos nosso Chefe de Estado e de Governo ao lado de Tony Blair (Inglaterra), Gerhard Schroeder (Alemanha), Lionel Jospin (França), Bill Clinton (Estados Unidos) e Massimo D'Alema (Itália) debatendo, na cidade natal de Nicolau Maquiavel (mera coincidência), soluções "progressistas" para o mundo globalizado do século XXI.
O encontro ocorreu em um contexto geral cujos principais atores - Estados Unidos, Europa e Japão - têm percebido que as conseqüências das transformações político-econômicas iniciadas na década de 80 - sob os auspícios do que convencionou-se chamar de neoliberalismo - apontam para uma realidade insustentável: a intensificação das relações comerciais não provocaram um "admirável mundo novo", mas sim aprofundaram os já velhos e conhecidos problemas - a brutal concentração da riqueza, com a exclusão de regiões inteiras do planeta das condições mínimas de vida, aumento das desigualdades sociais intra-países, com altos níveis de desemprego, e uma série de outros elementos , caracterizando uma realidade complexa cuja necessidade de busca de saídas, articulação de propostas ( cujos fundamentos, certamente, passarão pela superação dos pressupostos que orientaram o debate político-econômico do século XX) é cada vez mais premente.
A situação foi paradoxal: Fernando Henrique Cardoso defendendo perante "os outros" líderes mundiais mudanças na composição dos organismos políticos e financeiros internacionais, para "alargar sua base de legitimidade" e a imposição de regras sobre o mercado de capitais para a prevenção de crises, bem como outras mudanças estruturais capazes de gerar um processo de desenvolvimento auto-sustentável em direção a uma sociedade mais justa - e tudo isso em um encontro de "líderes progressistas".
Enquanto isso, na Terra do Pau Brasil, um relatório elaborado anualmente pelo Observatório da Cidadania apontava cortes orçamentários na área social que chegaram a 23,7% dos R$ 8,6 bilhões orçados para 1999, em função do pacote fiscal acordado pelo Brasil com o Fundo Monetário Internacional. Além disso, economistas brasileiros afirmavam que em virtude da falta de qualquer espécie de controle promovido pelo governo brasileiro sobre o fluxo de capitais para fora do país, permitiu-se a remessa de R$ 70 bilhões até o fim do mês de outubro de 1999.
Um Presidente latino-americano posando para a imprensa internacional como um líder progressista de centro-esquerda (afinal, não esqueçamos o passado de intelectual marxista, com passagem pela Université de Sorbone) , tomando iniciativas no sentido de propor alternativas aos problemas do mundo globalizado, e no plano interno liderando um governo sustentado em uma aliança fundada na tecnocracia econômica e na oligarquia dos velhos senhores, promovendo a abertura do país sem qualquer espécie de preocupação com as conseqüências para a economia nacional, gerindo um processo de concentração de recursos públicos e privados sem precedentes, sem qualquer ação coordenada que aponte a existência de um projeto de desenvolvimento que promova a resolução dos problemas sociais brasileiros.
O Brasil está necessitando urgentemente de líderes e partidos políticos que tenham a coragem de superar determinadas formas tradicionais de encarar o debate sobre o desenvolvimento e a inserção do país no cenário global, e para tanto precisamos de dirigentes que expressem a realidade de nosso país e não um Presidente feito sob encomenda para " o inglês" ver.

sexta-feira, 20 de agosto de 1999

O Mercador de Veneza e o lucro dos bancos

Um dos momentos mais belos da literatura clássica ocidental encontra-se na comédia O Mercador de Veneza de William Shakespeare, escrita em 1574, onde, além dos amores de Bassânio e Pórcia, Graciano e Nerissa, Lourenço e Jessica, encontra-se o conflito entre o banqueiro Shylock e o mercador Antônio em relação à um empréstimo cuja letra vencida estipulava como multa uma libra de carne junto ao coração do mercador.
O núcleo central da comédia, que desenvolve-se perante o Tribunal de Veneza, expressa a profunda discordância entre a visão de mundo do mercador, entre cujas virtudes encontra-se a de emprestar dinheiro sem cobrar juros, e a do banqueiro que aumenta sua riqueza com a prática da usura.
Shakespeare provavelmente não trataria desse tema em uma comédia se estivesse a produzir sua obra em fins do século XX, e muito menos ainda se acompanhasse os crepúsculos do milênio no Brasil.
O Brasil, esse gigante latino-americano que tem sido capaz de provar que as fronteiras do impossível estão muito aquém da nossa vã imaginação, produziu no primeiro semestre de 1999 mais uma aberração graças ao "talento" de nosso governo federal: com a desvalorização cambial e a elevação dos juros o lucro acumulado dos 15 bancos que divulgaram os balanços deste período passou de R$ 94,45 milhões (1º semestre de 1998) para R$ 2,56 bilhões (1º semestre de 1999), com uma evolução de 1217%.
Somente o Itaú lucrou R$ 1,09 bilhões e o Bradesco R$ 460,6 milhões, faltando ainda a divulgação de importantes bancos estrangeiros que atuam no Brasil.
Segundo Erivelto Rodrigues da Consultoria Austin Assis tal fenômeno financeiro pode ser visto com uma grande transferência de riqueza, pois muito do que o governo pagou a mais nos títulos da dívida pública, que estavam atrelados ao dólar, foram parar no cofre dos bancos.
Essa, porquê não dizer, brutal transferência de riquezas, tem sido possível graças ao "contrato" entre a oligarquia dos coronéis e o baronato financeiro que produziu Fernando Henrique Cardoso, que no intuito de levar o Brasil ao "mundo moderno" tem sido capaz de sacrificar seu sistema produtivo pela ausência de política industrial e agrícola em privilégio de um modelo que coloca o país de joelhos em relação à "bondade" do sistema financeiro mundial, concentrando renda, desempregando e condenando as gerações de brasileiros a vagarem pela imensidão da exclusão social.
A tragédia dessa realidade está no fato de não termos nenhuma Pórcia, travestida de doutor em Direito, para afirmar a necessidade de regras, regras que estabeleçam limites éticos à cobiça e à ganância.
Estará para sempre na comédia de Shakespeare a grande sentença, quando nas palavras de Pórcia, na iminência de Shylock cortar a libra de carne do peito de Antônio, profere: um momentinho, apenas. Há mais alguma coisa. Pela letra, a sangue jus não tens; nem uma gota. São palavras expressas: "Uma libra de carne". Mas se acaso derramares, no instante de o cortares, uma gota que seja, só, de sangue, teus bens e tuas terras todas, pela lei de Veneza, para o Estado passarão por direito.
O que falar diante das gerações de brasileiros que perderam e perdem seu sangue diante da ganância financeira ?

quarta-feira, 18 de agosto de 1999

Um pequeno tributo à dignidade

Nesses tempos em que nossos homens públicos adotam a política da tolerância zero em relação ao exército de famintos e à massa de sujeitos deserdados, enquanto debatem nos salões das ricas famílias, à mesa de finos talheres e iguarias, os destinos da nossa nação, faz-se necessário, por uma simples questão de sobrevivência, construir sonhos ou acalentar lembranças. E com eles e elas render homenagens àqueles que fazem a diferença, e ainda lutam.
O fato que relatarei constitui uma lembrança autônoma, dessas que fustigam a mente continuamente. Brotou pela primeira vez quando, dias após a ocorrência do fato, parei para refletir sobre nossas lideranças, dentre elas o ser humano que ocupa a Presidência da República do Brasil, um intelectual brilhante, falante de várias línguas, refinado, detentor das boas e más características de todos os que, de alguma forma, vivem das palavras e da imagem. Dentre as más, certamente, a vaidade.
Estou falando da lembrança de uma festa, onde, em meio à balbúrdia do salão apinhado de homens e mulheres um senhor inicia com passos lentos, acompanhado por seus anfitriões, o caminho que o levará à mesa de honra onde receberá o título de Doutor Honoris Causa. É o quinto título dessa espécie que receberá em terras brasileiras. Seu rosto marcado pela vida carrega um indisfarçável sentimento de cansaço, não um cansaço físico, desses que advém após horas de trabalho ou uma viagem longa, mas sim uma fadiga espiritual. Há uma clara falta de sintonia entre este senhor e o mundo de pessoas que o cercam, evidente no desconforto que procura esconder.
Afinal o homem, que não teve a fortuna de beneficiar-se de estudos adiantados, não concluindo sequer o curso ginasial - chamado liceal em seu país -, que tomou contato com os livros através das bibliotecas públicas e que se criou em uma família pobre em uma aldeia no interior de sua terra, que vagou por uma infinidade de profissões e ofícios para sustentar-se em um mundo que talvez nunca o compreenderá, receberá mais um título cercado de pompas e um assédio sufocante da imprensa por ter conseguido - grande contradição - driblar com as palavras o destino traçado pela realidade, afirmando a sua humanidade, os seus sonhos e sentimentos através de seus livros.
A cena foi paradoxal, pois em meio às palmas e assovios pesava um profundo silêncio - dois mundos chocando-se de forma constrangedora: de um lado um senhor solitário, um velho de mãos calejadas, carregando sua história simples, austera, marcada por valores e projetos, lutas e desencontros, terra e suor, por uma humildade inabalável e uma crença na necessidade de reafirmar cotidianamente a cidadania, e de outro uma massa difusa, senhores vestidos com suas togas, cerimônia, formalidades, clichês, discursos solenes e estranhos, pompas e mulheres pintadas e risonhas.
Dizem que as coisas da realidade sensível nos são dadas através de nossos sentimentos. Presenciei tudo tomado de uma estranha tristeza, observando a sociedade frívola, consumista, artificial e deslumbrada desse final de milênio em que está inserida a Universidade, este reino onde impera a rotina e a bajulação, premiando um filho de agricultores pobres e analfabetos, velho, autodidata e ainda "sujo" dos obstáculos que a vida lhe ofereceu.
Com uma fala pausada e arrastada típica do seu país, o velho agradeceu profundamente o título, expressou mais uma vez seus sonhos de que o mundo possa ser melhor e mais justo. Saiu como entrou, em um profundo silêncio, levando consigo seu mundo e sua dignidade. Dali, dentro de alguns dias, voltaria para outra ilha, a de Lanzarote, nas Canárias espanholas, onde está auto-exilado e redige de forma incansável seus textos, semeando suas parábolas e metáforas. Havia cumprido mais uma escala de compromissos desde que ganhara o prêmio máximo da literatura mundial. Agora, em suas palavras, queria ficar só.
Nos dias seguintes à concorrida cerimônia pegava-me a refletir sobre o episódio e seus significados, sobre o mundo em que vivemos com suas misérias e desencantamentos, a descrença de alguns, a razão cínica de muitos e o sentimento de profunda necessidade de reinventar o futuro para além dos significados que nos movem atualmente.
O velho chama-se José Saramago, era 18 de agosto de 1999, no Auditório da Reitoria da Universidade Federal de Santa Catarina, na Ilha de Florianópolis.